Galera, depois de muito tempo ruminando sobre, decidi fazer uma vaquinha com o intuito de arrecadar parte do dinheiro para a realização da minha mastectomia (retirada das mamas). Já faz algum tempo que eu decidi dar uma reduzida nas minhas boemias e nas minhas saídas, sejam elas simples almoços com os amigos ou festas badaladas (tuntz tuntz tuntz).O valor mínimo para contribuição, estipulado pelo site, é de R$ 5,00. Como objetivo da vaquinha, coloquei R$ 3.500,00 como valor máximo a ser arrecadado, visto que o valor da cirurgia sai a R$ 3.000,00 de entrada e o resto é parcelado. Coloquei R$ 500,00 acima do valor da entrada devido aos valores descontados de cada contribuição, arredondando o valor das taxas para 10%. http://www10.vakinha.com.br/VaquinhaE.aspx?e=273804Agradeço de coração aos que puderem contribuir e peço para que me ajudem com a divulgação. Abaixo conto um pouco sobre a minha história e a minha luta enquanto homem trans*.***INFÂNCIASempre fui um garoto tímido e reservado, enclausurado dentro do meu próprio mundo imaginário. Aos três ou quatro anos, lembro-me de perguntar aos meus pais por que Deus havia sido mau comigo. Deus, símbolo de bondade, havia sido mau comigo. “Deixe disso, menina”, minha mãe dizia. “Deus não erra nunca.” Deus não erra nunca.Cresci rezando todas as noites para que Deus e todas as entidades possíveis me transformassem num menino normal. Lá no fundo, algo sempre me dizia que eu era diferente dos demais. Algo me faltava – mas o quê? “Sou um menino”, eu dizia de boca cheia.“Você é menina”, todos me diziam. “Tem perereca.”“Sou MENINO”, eu corrigia.“Meninos têm piu-piu. Você é menina e tem perereca.”Meus pais passaram por grandes bocados tentando me ensinar que eu era menina e que meninos tinham piu-piu. Ave Maria cheia de graça,o senhor é convosco,dai-me um piu-piu,Amém. Havia algo de errado com as pessoas.Ou havia algo de errado comigo.Comecei a sentir repulsa por espelhos - quem era aquela pessoa ali refletida? -, asco do meu próprio corpo e uma absurda repugnância pelas pessoas. Como toda criança, eu gostava de falar e falar e falar. E eu repetia: “eu sou menino!”. E as pessoas repetiam: “você é menina!”.Então veio a gagueira - e me abraçou como uma velha amiga, entre palavras e sílabas tortas.De que adiantava falar se o Mundo me calava? Então vieram os livros e a escrita – e me salvaram de um mundo onde tudo era incompreensão.***“Fulana estava na cozinha cortando rabanete,a faca escorregou e cortou o seu cacete.”“Piá sem pinto, piá sem pinto, piá sem pinto!!!”A escola sempre foi um lugar acolhedor. Minha primeira paixonite: a garota mais bonita da sala. Todos os garotos gostavam dela – e ela gostava dos garotos. E eu, claro, sempre fui invisível e escondido por uma carcaça de roupas cor-de-rosa e aulas de Educação Física separadas por sexo.(e o piu-piu?)***ADOLESCÊNCIAProtegido dentro de uma redoma escapista e inocente, fui pego pelo Demônio, adolescente e púbere, cheio de jogos repletos de sangue, progesterona e estrógeno. A redoma fora quebrada e a realidade estava ali, crua e cruel. “Você tem síndrome dos ovários policísticos”, disse-me a endocrinologista. “Isso faz com que seu corpo produza mais testosterona do que o normal para uma menina.”“Deve ser por isso que ela é assim”, disse a minha mãe.Meu pai assentia com a cabeça.Pensei: “pronto, o problema é esse.”Dessa forma, tomei anticoncepcionais por uns dois anos. Continuei menino.***Aos doze anos, após muitas noites de pesquisas cibernéticas e googleanas, tive uma epifania. “Transexual é uma pessoa que se sente aprisionada em um corpo que não lhe pertence.”Era isso.Escrevi uma carta de quatro páginas para a minha mãe, explicando-lhe tudo.“Leia quando sair de casa”, dizia o envelope sobre o travesseiro.Minha mãe, alma curiosa, veio correndo me abraçar, aos prantos. Meu pai só balançou a cabeça, incrédulo. “É uma fase.”“Eu sempre soube”, minha mãe confessou.Achei que aquilo fosse mudar tudo. Não mudou.CATARSEQuando eu entrei no Ensino Médio, aos quinze anos, resolvi pedir para usar o tal do “Nome Social” no colégio. Munido com todas as documentações possíveis a respeito do assunto, eu, figura andrógina, pedi para usar o nome de “Alexander”. Um pouco acanhado, também pedi para usar o banheiro masculino.“O MEC fiscaliza tudo por aqui. Não se pode usar um nome diferente do que consta na matrícula e nos seus documentos”, eles me disseram.“E o banheiro?”, perguntei esperançoso.“Impossível.”***A minha 2ª epifania aconteceu na metade do primeiro ano.Cansado de ser expulso dos banheiros femininos - “você não está no banheiro errado?”- , cansado de pedir favores, cansado de ser visto e de ser tratado e de ser amado como alguém enquanto carcaça e aparência, decidi externar quem eu realmente era.8 de Agosto de 2012. Primeira aplicação de testosterona.Primeiro (puta) abscesso na bunda.E, como uma Fênix, eu renasci das minhas próprias cinzas.***“Arranca metade do meu corpo, do meu coração, dos meus sonhos. Tira um pedaço de mim, qualquer coisa que me desfaça. Me recria, porque eu não suporto mais pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum.” (José Saramago)


PS: não consegui achar o nome do autor do desenho.
tedbunny:

Hans von Gersdorff: Feldtbuch der Wundartzney: newlich getruckt und gebessert
"- You’re very poetic.
- No, just sad."
José Saramago from Blindness

posted 5 days ago with 19,652 notes

mending4:

 Todos os direitos reservados a maud chalard